CARNAVAL DE MAQUETE


           

   

Grêmio Recreativo Escola de Samba de Maquete

Bafo do Tatu


ESPELHOS


Carnavalesco : CLAUDIO PINTO
Samba utilizado(Escola/Ano) : Inédito
Interpréte : Claudio Sampaio

SINOPSE


Autor(es) : CLAUDIO PINTO


Consta no Aurélio, dicionário da língua portuguesa, que espelho é “o raio luminoso que se espalha em uma direção”.“Espelhos” é o enredo que a Bafo do Tatu vai levar para a avenida, na esperança de ver refletido em seu olhar a alegria e a felicidade da comunidade da Encruzilhada.
Conta uma lenda africana que no princípio havia uma única verdade no mundo. Entre o Orun (Mundo invisível, espiritual) e o Aiyê ( mundo natural) existia um grande espelho. Assim tudo o que estava no Orun se materializava no Aiyê. E todo o cuidado era pouco para não se quebrar este Espelho da Verdade, que ligava os dois planos. No mundo natural, vivia uma jovem chamada Mahura, que trabalhava muito, pilando inhame. Um dia, perdendo o controle do movimento ritmado que repetia sem parar, a mão do pilão tocou forte no espelho que se espatifou pelo mundo. Pediu desculpas a Olorum ( Deus supremo) que declarou que a partir daquele dia não existia mais uma verdade única. Assim, cada um de nós, leva um pedaço desse espelho em nosso ser. Um pedaço do espelho da única verdade. Oxum então foi designada para ensinar a humanidade a receber os Orixás em seu corpo. Assim, ensina as Iaôs que incorporando, trazem de volta os Orixás ao Aiyê.
Oxum leva em suas mãos um pedaço do espelho da verdade, cedido por Olorum, chamado de Abebé. É através do espelho dela que pode-se observar o que está atrás de si, nossa ancestralidade. Ela rege o ser puro e tem autorização de resgatar a sabedoria ancestral para trazer o novo. Seu espelho revela o interior, seja este bom ou ruim. Já Yemanjá, que também ganhou este presente de Olorum, leva o espelho do mundo, refletindo todas as diferenças. Ela é exemplo de conduta para seus filhos,orientando e mostrando os caminhos para o bom futuro. Espelho que também é chamado de abebé, só que de cor prateada ou azul. Oxum é ontem e reflete o que trazemos na alma. Yemanjá é amanhã e reflete o mundo exterior que nos chama para a batalha. Juntas regem os passos da humanidade, na busca pelo Orum.
Yemanjá, rainha das águas, espelha o céu no mar, nos lagos e rios. Foi assim que venceu uma guerra declarada a ela por um reino, pois este sabia que a Orixá vivia sozinha e sem guardiões. Para vencer o inimigo, Yemanjá distribuiu espelhos de todas as formas e tamanhos a beira-mar . Chegando a batalha, ela se vira para o centro do mar de espada em punho. Seus inimigos ao se aproximar para combatê-la, veêm-se refletidos nos espelhos como monstros e assim fogem amendrontados.
Outra lenda provinda do reflexo do espelho das águas é de origem indigena: A história de Naiá. Naiá, apaixonada por Jaci, a Lua, toda noite esperava ser escolhida por ele para virar uma estrela no céu. Muitas eram as felizardas, nunca ela. Porém, em uma noite de desespero, a cunhatã, vendo espelhada nas águas o reflexo da lua, lança-se ao fundo do mar e se afoga. Compadecido pelo seu sofrimento , Jaci, transforma-a em uma estrela das águas, uma Vitória Régia.
Do mundo europeu, a lenda que nos chega é a de Narciso. Era tão belo que todas as pessoas se apaixonavam por ele. Um dia, sem querer, olhou seu próprio reflexo nas águas e tão encantado , ficou consigo mesmo que morreu ali, contemplado o seu rosto.
Era assim, que a humanidade podia ver seu reflexo; até  a invenção do espelho, inicialmente na Suméria. Com a evolução do metal, com placas de bronze polidas, feitas por  gregos e romanos, a imagem começou a ficar mais nítida. Porém só por volta do século XIV, criados por artesãos de Veneza, na Itália, o espelho foi difundido pelo mundo. O segredo de sua fórmula de produção deu origem a muitos mitos e lendas. O povo pobre e simples achava que era um instrumento de bruxaria, maligno. Alguns acreditavam que eram portais para outros mundos e dimensões. Os ciganos, os apresentavam em suas feiras como objetos de magia e assombravam os olhos daqueles que viam sua imagem refletida em espelhos côncavos e convexos. Quantos não foram queimados na fogueira da inquisição, acusados de bruxaria?
Todas estas crenças, fizeram com que o espelho, fosse usado nas artes plásticas e literária. Alice através do espelho, é uma viagem mágica através de um portal. Mesmo portal usado para a sedução de Cristine , pelo Fantasma da Ópera. Jostein Garden, nos emociona com um conto de uma Menina chamada Cecília, em fase terminal, que recebe a visita de um anjo, Ariel, com a missão de prepará-la para uma grande viagem. Para as crianças, o espelho que sempre fala a verdade, responde a Madrasta da Branca de Neve, quem era a mais bela. Outro espelho mágico é o da Fera que mostra onde seu amor se encontrava. E claro, a famosa história da vitória de Perseu sobre a Medusa. O monstro que transformava em pedra todos que encaravam seus olhos, é petrificada ao ver seu próprio reflexo no escudo do guerreiro.
Hoje, com a produção mais barata deste objeto, todos podem ver a sua própria imagem refletida. E a vaidade impera, onde os novos Narcisos passam horas a se admirar, usando inclusive o espelho para tirar fotos, até a invenção da selfie, que é uma forma de espelhar a própria imagem.
Infelizmente, com todo este avanço da tecnologia, esquecemos de evoluir moralmente e cada vez mais, nos perdemos em ilhas de egoísmo, ambição e solidão. Esquecemos daquele que é o Espelho da Humanidade, da Verdade e o exemplo a seguir.
Mas Olorum, ao presentear Oxum e Yemanjá no início da nossa história, ordena uma missão. A missão de resgatar ao caminho da luz todo aquele que está perdido. E por mais difícil que seja o caminho, a senhora do Espelho de Ouro e a Rainha das águas , nos guiarão a encontrar o mar da redenção.
A Bafo espera, que possa quebrar este novo Orum Aiyê e espalhar pela avenida pedaços de verdades, que vão encantar os olhos, espelhos da alma, daqueles que a assistirem. Pois de acordo com a lenda, o real significado da vida é que não existe uma verdade única. E se juntarmos cada pedaço que há dentro de nós com o outro, reconstruiremos o espelho sagrado e então Deus poderá finalmente refletir-se em nós mesmos. E Irokô e Orunmilá ( Tempo e Destino) nos auxiliam nesta nossa jornada espiritual. Porque não importa o tempo que vamos levar e quantas vidas serão necessárias nosso destino é chegar ao Orum.

Escute o Samba


Escola/ Ano: Inédito
Compositores: Claudio Sampaio
Intérprete: Claudio Sampaio



ESPELHOS

A luz dos olhos teus, espelha a tua alma.
Queria te olhar e neles refletir!
Com a Bafo eu vou cantar e você pode vir.
Quisera ter você aqui!

Espelho azul de Yemanjá,
O imenso mar, onde a bela índia Naiá,
Jaci, o guerreiro, espera.
Para uma estrela virar, a índia vai mergulhar,
num prateado mar,
que espelha o luar.

Espelho, espelho meu!
Quem dera meu raio de sol, espelho meu,
Agora em minha porta!
Espelho, espelho meu!
Será, que ainda vou a encontrar?

Espelho, espelho meu!
Quem dera o meu raio de sol na porta!
Espelho, espelho meu!
Será, que ainda vou a encontrar?

Lendas e mistérios tão guardados,
desvendados por poetas consagrados,
o outro lado do olhar.
Portais que nos levam pra outro mundo,
em apenas um segundo,
onde a bela Alice vai brincar.
Côncavo e convexo, mudando o reflexo
e o nexo de um labirinto surreal.
Onde os narcisos perdem a noção do tempo a admirar
sua beleza divinal.
Grande Perseu que a Medusa
em pedra transformou e aniquilou
sua maldade.
Rogai por nós! Oh, meu Senhor!
Que nos invada o seu amor!
Tu és espelho para toda a humanidade!