CARNAVAL DE MAQUETE


           

   

Grêmio Recreativo Escola de Samba de Maquete

Acadêmicos da Fuzarca


Negra, negritude que fascina!


Carnavalesco : Alexandre Callegari Caetano
Samba utilizado(Escola/Ano) : São Leopoldo - 2013
Interpréte : Thiago de Xangô

SINOPSE


Autor(es) : Alexandre Callegari Caetano

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ARGUMENTO



Dentro da maioria dos brasileiros repousa um palmo da savana, um murmurar das quedas d'água das cataratas do Congo, o trepidar do solo ao estouro da manada de antílopes em fuga, o sopro dos ventos de Iansã - orixá das ventanias e tempestades - enfim, repousa um pedaço da África. Desta forma, a G.R.E.S.M. Acadêmicos da Fuzarca traz para a passarela do samba um canto para a África e a raça negra. Um canto de reconhecimento, de louvor, de agradecimento. Não se trata de lamento ou dor. Trata-se de orgulho e vaidade, pois só reconhecendo-se o que somos e exaltando-se nossas raízes é que podemos almejar e construir de fato um futuro grandioso povo e grandiosa nação. Eis a nossa mãe negra em um recorte da metade do século XX aos dia atuais. Eis a nossa negra raça que fascina!

ENREDO



África: ventre do mundo de onde um dia partiu a humanidade. No chão abençoado pelos mais variados deuses encantados - voduns, inkices, orixás - o ser humano surgiu, cresceu e passo a passo evoluiu. Maternal, foi testemunha da história de seus filhos e também sofreu diante da cobiça e ânsia de poder. Ao longo de quatro séculos e meio, a voracidade colonial devastou o continente africano e espalhou, arregaço após arregaço, o cheiro de enxofre por onde passou. Como complacente mãe, a África, já na metade do século XX vê então resplandecer de um novo sol que surgiu anunciando enfim a liberdade. Um a um, os grilhões coloniais foram se rompendo e as múltiplas etnias puderam enfim expor o seu cantar, suas cores, suas crenças, suas belezas infinitas, sua fé. Fé essa que se faz criar uma identidade religiosa, e em harmonia com o divino, se vê forte para ser livre, ter então o direito de viver, sonhar, de poder saudar a natureza novamente, de mais uma vez poder vagar pelas savanas, de sentir o ar úmido das verdejantes florestas. Enfim, ter paz no coração.
Seu povo, seus filhos festejando livremente então lhe bradavam: "Mama Afrika!". Com K, assim como muitos povos berberes gravam há séculos nas mais variadas regiões do continente. Os negros passam a retomar conceitos, a recuperar a própria história, a se enxergarem como especiais e únicos. Abençoada terra, geratriz da humanidade, seu espírito tornou-se um grande espelho para que seus filhos pudessem se visualizar e, assim, como verdadeiros narcisos negros, se envaidecem pelo que são.
Pouco a pouco, ao se espalharem na grandeza da própria terra, o orgulho de ser negro voltou aos olhos e ao coração de cada um daqueles que nasceram ou descenderam daquelas paragens. Livres, vaidosos e orgulhosos, em cada canto do mundo, guerreiros de uma nova raça foram se erguendo. Negros que encarnaram com o espírito de luta das antigas tribos, dos antigos jagas do oeste africano e que lutam pela completa inserção dos negros na realidade social estabelecida em cada pedaço desse planeta com tantas pessoas, mas que ainda parece pertencer somente a alguns. Desta forma, a negra negritude foi se afirmando, batendo cada vez mais forte, no interior de cada coração afrodescendente; batendo cada vez mais forte na face da intolerância e do racismo.
Aos que duvidaram da capacidade do negro lutar, ele ensinou o que é força, o que é axé. Veio, viu e venceu! Aos que duvidaram na capacidade do negro governar, ele demonstrou que justiça independe de raça. Negro também é rei e senhor! Assim, lição após lição, ensinamento após ensinamento, revelou-se enfim que a raça negra é portadora de uma riqueza que ultrapassa as fronteiras da blindada pele de ébano. Trata-se de uma riqueza de valores, riqueza de tradições, enfim, uma riqueza de cultura.
Em nosso país, tamanha pujança se expõe através da própria miscigenação, um dia vista como fraqueza da espécie humana, mas agora tão valorizada como fortaleza de um povo. Salve o negro afro-brasileiro! A grande roda do tempo não cessa em girar...Das alturas, sob essa nova Terra recém-nascida, uma enorme constelação de estrelas negras que brilha fulgurante na imensidão. Estrelas que parecem emprestar seu brilho a tantos filhos da África e que poderiam pegar deles seus nomes para então se nomearem. Seriam assim Zumbi, Barack Obama, Jovelina, Xica da Silva, Martin Luther King, Nelson Mandela e tantos outros. Com seu brilho estelar, cada uma delas foi capaz de riscar um ideal de igualdade racial e harmonia ao longo dos séculos e em vários cantos do mundo:
"Sim, nós podemos!"1 , porque, "eu tenho um sono..."2
Assim, como se traçado pelos caminhos de Ifá, Orixá do destino, o embrião de um novo mundo vai surgindo no século XXI. Não. Ainda não é um mundo perfeito. No entanto, o que se vê é a forja de um planeta marcado pelo signo do perdão. Após anos de espoliação branca, após séculos da mais cruel e atroz praga do racismo, os filhos do continente africano não erguem armas para buscarem a vingança de seus algozes. Para todos aqueles que um dia lançaram sobre a Terra a sombra nefasta da intolerância racial, os negros dão o perdão.
Sonho real, nesta nova Terra embrionária, também vai emergindo das águas quentes do Atlântico. Óh África dos meus sonhos, que com o passar do tempo se desenvolveu e hoje vive um novo mundo de tempos e glórias, mostrando uma potência, tanto na economia, quanto na evolução humana. Uma África com mais dignidade, mais respeito ao direito de viver e que começa a se esforçar para tentar deixar para trás o horror da guerra civil. As estrelas negras emprestam mais uma vez seu cintilar intenso para que seja possível um regresso. Todos aqueles que um dia foram obrigados a saírem dos braços maternos do continente negro podem retornar! E sentir esta alegria negra, que será difundida por toda esta nova nação!
Os olhos da humanidade podem, mais uma vez, se voltarem para aquela matriarca altiva, porém sempre generosa que esperou séculos o regresso de cada um de seus rebentos. Então parem...Ouçam o fundo da alma os sons africanos e ao fecharem os olhos percebam o chamado da grandiosa mãe negra a dizer docemente: "Vem cá meu dengo...meu colo é teu berço e tua vida é a minha vida também". Os ventos percorrem a alma afro-brasileira e balançam as folhas do baobá nas savanas... Agô, Mãe África! Paz no retorno a todos!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS História Geral da África, VII: África sob dominação colonial, 1880 - 1935 / editado por Albert Adu Boahen - 2ª ed. Rev. - Brasília: UNESCO, 2010. (1040p.)
História Geral da África, VIII: África desde 1935 / editado por Ali A. Mazrui e Christophe Wondji - Brasília: UNESCO, 2010. (p. 335 - 1095)
MOKHTAR, G; DAVIDOFF, Carlos Henrique. História geral da África: a África antiga. São Paulo: Ed. Ática. 1983 (p. 879) VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás - deuses iorubás na África e no novo mundo. São Paulo: Ed. Corrupio, 1ª Ed., 1981. (618p.)

1 Citação a Barack Obama: "Yes, We Can!"
2 Citação a Martin Luther King: "I have a dream."

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