CARNAVAL DE MAQUETE


               

   

Grêmio Recreativo Escola de Samba de Maquete

Arco Íris


O AUTO DO SANTO PRETO E A BÊNÇÃO DAS TRÊS FOMES


Carnavalesco : Eduardo Wagner
Samba utilizado(Escola/Ano) : G.R.C.E.S. Combinados de Sapopemba, 2008
Interpréte : Ito Melodia e Jorge Buda

SINOPSE


Autor(es) : Eduardo Wagner

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O AUTO DO SANTO PRETO E A BÊNÇÃO DAS TRÊS FOMES

Autor: Eduardo Wagner


A Arco Íris, para o Carnaval 2019 da UESM, apresenta um enredo em homenagem às festividades de São Benedito, realizadas no bairro do Jurunas, em Belém do Pará. São festas que se integraram à vida cultural do bairro, envolvendo memórias e devoção, e fazendo parte da construção social e cultural do Jurunas.
Este bairro se formou às margens da cidade, entre o centro e o rio. Habitado primeiramente por nativos (indígenas) tornou-se, com o passar do tempo, espaço povoado por caboclos (ribeirinhos) e descendentes de africanos. Estes chegaram ao lugar em maior quantidade em fins do século 19, quando a cidade passou por uma reforma estrutural que, dentre outras coisas, deu vida ao Teatro da Paz – construído sobre a área onde viviam, o Largo da Pólvora – hoje, a Praça da República.
O Jurunas cresceu a partir do início do século XX e costurou uma vida cultural efervescente. Rica em manifestações diversas inclui em suas práticas festas do catolicismo popular – dentre as quais as de São Benedito –, escolas de samba – o Rancho Carnavalesco Não Posso Me Amofiná, fundado em 1934 –, bois bumbás, quadrilhas e pássaros juninos. Tudo isso em meio a um grande número de pessoas, de feiras, de bares, motéis, terreiros, igrejas, do vai e vem de embarcações que trazem alimentos vindos das ilhas próximas.
O Jurunas é o lugar de entrada principal do açaí na cidade, fruto que pertence à identidade cultural de Belém, juntamente com a farinha d’água e a de tapioca. É também, num contraste negativo, lugar de violência e de pobreza, que convivem com a riqueza de muitas casas, e com o luxo da cultura popular em todas as manifestações que pululam por lá.
As festividades de São Benedito são um retrato expandido de tudo isso e atravessam a história do bairro e das vidas de seus moradores. Realizam-se entre o fim do mês de julho e início de agosto, sediadas na mesma rua, a Rua dos Timbiras. Uma pertence ao Centro Comunitário da Rua dos Timbiras e à família de dona Venina Vasconcelos, desde 1932. A outra, desde 1955, pertence à Irmandade de São Benedito da Rua dos Timbiras.
Todo o caráter antropológico, histórico e cultural peculiar do bairro são dimensões das realizações dessas duas festas. Por esse motivo são um campo fértil para pesquisas acadêmicas e, com toda certeza, (e que bom!), também para a visão espetacular das escolas de samba.
Este desfile será parte de minha tese de doutorado. A parte mais bonita, a meu ver, pois me liberta das normas secas da ABNT e me permite apesentar uma leitura carnavalizada da vida no Jurunas e da devoção a São Benedito de um modo que me deixa feliz: usando a pena colorida das escolas de samba para contar uma história de modo onírico, fabuloso e popular.
Como não é para ser uma leitura densa e acadêmica, o que o enredo apresenta é uma visão lúdica, onírica e espetacular da relação entre São Benedito e o bairro do Jurunas. Para isso, o primeiro caráter de frei Benedito levado em consideração foi o de sua função enquanto frei: a de cozinheiro. São Benedito, portanto, é um santo cozinheiro. Além disso, toda a relação com sua formação cristã como franciscano devoto do Presépio, filho de africanos e seguido por muitos devotos que se identificaram com sua vida, onde a pobreza, a cor da pele e a humildade são laços de afetividade, são levados em consideração profunda.
O enredo transforma tudo isso em uma narrativa que toma o modelo de auto de fins da Idade Média e início do Renascimento como guia – aquela forma teatral de rua e caminhante, tal como as escolas de samba –, onde se tem uma breve introdução que apresenta a passagem do Frei para o Santo, entre seu primeiro prodígio – a transformação dos pães em rosas – e sua chegada ao Céu, recebendo do Espírito Santo uma grande missão: libertar os filhos da África. Os filhos da África, no enredo, são todos aqueles que foram transformados em escravos e, numa leitura expandida, todos aqueles que têm seus espíritos presos ao sofrimento, à miséria, à pobreza.
São Benedito, então, se torna o santo dos excluídos e dos marginalizados. Isso é importante para entender sua devoção entre africanos escravizados tanto na Europa quanto no Brasil até o surgimento das irmandades de homens pretos, onde o catolicismo autoritário se subverte em popular, em uma modalidade fluida, que brinca com a vida e com os prazeres do corpo.
A narrativa, então, considera que a partir desse primeiro capítulo da vida de São Benedito, ele ganha no Céu um lugar especial onde produz alimentos espirituais para matar a fome dos que têm fome, e sempre abençoado pela afeição do Espírito Santo. E assim, segue pelo mundo ajudando os desvalidos, os segregados e marginais.
Em sua missão, ele vê o bairro do Jurunas, aqui no Brasil, um país que desde o século XVII já tinha amor por sua pessoa. Vê que a margem do rio, onde nasceu o bairro do Jurunas, perdeu sua fartura e seu caráter divinal, quase paradisíaco, com a chegada daqueles que foram chamados de “Caraíba” pelos nativos que viviam por aqui na santa paz da relação com a natureza.
Essa margem tornou-se o lugar da fome, da pobreza. Um depositário dos humilhados na cidade de Belém, entre negros, indígenas, nordestinos e caboclos. Quando a cidade cresceu e se refinou, o Jurunas sequer passou pelos palcos requintados do Teatro da Paz, que teve suas portas abertas apenas para os ricos, e assim se tornou um lugar à parte, um mundo outro dentro do mundo da cidade.
Então, São Benedito se compadece. Olha para o Jurunas e vê suas necessidades. Resolve, de sua cozinha celestial, preparar alimentos para esse povo da beira do rio e identifica três fomes: a fome do corpo, que precisa de comida para se sustentar; a fome do espírito, que é perseguido e não pode ser livre para exercer sua fé; a fome da alma, que tira das pessoas o riso e a alegria do festejar. Assim, São Benedito envia do Céu, nas mãos de uma miríade de anjos, sua bênção das três fomes para ser derramada no bairro do Jurunas.
Para sustentar o corpo, faz frutificar a fartura de antes, da terra, das águas. Para vivificar o espírito, abre as portas da espiritualidade para que todos rezem, cantem, dancem, agradeçam a seus santos e divindades e se alimentem por meio da fé. Para animar a alma, mata a fome de riso com a festa e traz ao bairro tudo que pode fazer do jurunense um nobre, mesmo que pobre: e chegam, em grandes e apoteóticos eventos de luxo, os bois bumbás, os pássaros juninos, as quadrilhas e, claro, o carnaval, que reina no Jurunas a partir da fundação do Rancho Não Posso Me Amofiná, a escola de samba mais antiga da cidade.
Com esse povo tendo suas fomes saciadas, São Benedito resolve, para festejar junto com seus amados devotos, comemorar anualmente em suas festividades da Rua dos Timbiras, onde o corpo, o espírito e a alma são alimentados continuamente em companhia do humilde Santo Preto e cozinheiro.
Este é o enredo da Arco Íris para o Carnaval da UESM em 2019. Uma narrativa breve que se completa pelos textos explicativos do roteiro, pela letra do samba e pelo desfile em si.
Viva o Glorioso São Benedito!
Escute o Samba

G.R.C.E.S. Combinados de Sapopemba, 2008. Enredo: Devotos Ou Não, Seus Filhos Aqui Estão! Salve Tietê: Salve São Benedito!

A gente faz a festa
E o povo aplaude, Tietê
São Benedito, a nossa oração
É pra te agradecer
Santo padroeiro
A quem o romeiro
Faz preces pra te exaltar
O canto que paira no ar
Meu bem querer
A negritude comemora a irmandade
Levando paz e amor nesta cidade
No tempo da escravidão
O negro construiu sua capela
Com fé e devoção
Levando a bandeira, segue a procissão
Meu santo protetor
Ouça o nosso clamor
E Sapopemba envolvida no seu manto
Derramando seu encanto
Vem cantando
No seio da escravidão
Nasceu um menino de bom coração
Bendito e abençoado
Seguiu seu destino, a sua missão
Conquistou respeito entre mosteiros e fiéis
Confissões e pedidos de graça
Àquele que passa e pede proteção
Santo milagreiro
Proteja a combinados e o povo brasileiro