CARNAVAL DE MAQUETE
U E S M

G.G.R.E

Falcão Imperial


TODO VERDADEIRO BRASILEIRO É UM CHICO REI


Carnavalesco : LARISSA DIAS RODRIGUES
Samba utilizado(Escola/Ano) : Inédito
Interpréte : Walter WSS ( Walter Santos )

SINOPSE


Autor(es) : LARISSA DIAS RODRIGUES

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ENREDO: TODO VERDADEIRO BRASILEIRO É UM CHICO REI


Autor: LARISSA DIAS RODRIGUES

Viemos contar a história de Galanga, um monarca africano, nascido no Reino do Congo, que foi preso por comerciantes portugueses que eram traficantes de escravos e que o trouxeram para o Brasil num navio negreiro chamado “Madalena”. Junto com a família real e os seus suditos.
Chico Rei foi humilhado perante seu povo, os comerciantes abriram sua boca e checaram a condição de seus dentes, (como os negros eram checados antes de serem vendidos). Todos os considerados como boas aquisições foram acorrentados e levados para o navio. Apos ser levado cativo e entulhado nos porões do tumbeiro, junto com todos os outros, Chico Rei foi tomado por uma dor angustiante em seu peito. Era o banzo, doença da alma que fazia com que homens se entregassem a contemplação da morte. Mas ele não se deixou esmorecer. Pediu a atenção daquelas pessoas e disse sussurrando para os mais próximos que não podiam deixar sua fé e esperança serem abaladas, apesar de todas as dificuldades, eles seriam livres, pois ele como Rei não desistiria do seu povo, como homem, não desistiria dos seus irmãos. A mensagem foi passada adiante e entre murmúrios, fungados e lágrimas eles começaram a cantar: Kawo-Kabiesilé: Que a justiça se faça e o mal se afaste nos caminhos que eu devo passar. Conta-se que um Falcão, veio dos céus e pousou no ombro de Galanga. Dali até o fim de sua vida, esta ave nunca o abandonou. Diziam se tratar do próprio rei Xangô.
De dentro dos porões do navio se ouvia o cantarolar nos negros, um misto de choro e de tristeza, o canto do ponto à Xango tocou o coração de Oxum. Se compadecendo do lamento daquele povo, Oxum saiu do seu palacio encantado no fundo do mar e submergiu até a loca de uma pedra e se pós a cantar, pois quando aflita, canta cantigas bonitas, se você chorar.
Chegando ao Brasil, o navio atracou no Rio de Janeiro no Valongo, e um senhor de escravos de Minas Gerais agradou-se dos objetos vendidos. Os comprou e foram levados para Vila Rica. Durante muitos anos trabalhado como escravo, Chico Rei juntava ouro em seus cabelos e ao chegar na senzala os lavava em peneiras em cima de pias. Seu povo o ajudava jogando água com uma jarra por sobre sua cabeça. Durante muitas noites eles se reuniam e cantavam a Iansã, guerreira, pedindo forças para suportar e proteção para que nenhum grande mal lhe ocorresse enquanto tentavam se reerguer. Aos poucos, um por um, foram libertados, tal qual a promessa do rei. Ficou rico e acabou comprando a fazenda em que fora escravo. Galanga fez do chão de sofrimento, seu paraíso e anos mais tarde se afeiçoou ao catolicismo, sem jamais esquecer ou abandonar sua fé. Galanga foi batizado e passou a se chamar Francisco, carinhosamene Chico. Uma nova vertente de fé lhe levou até a Santa Efigenia, a quem demonstrou sua devoção, construindo assim uma igreja para a santa, onde a escultura da mesma foi posta no alto da cruz.
No fim da vida, em seu leito de morte, Chico, observa todos os seus filhos, netos e amigos, e rodeado pelos Orixás que sempre o acompanharam, fala: “No dia em que a liberdade, tão dificilmente conquistada, fosse tomada de seu povo, e de seus descendentes, voltaria àquele paraíso na terra, e lutaria como Galanga, com os machados de Xangô, os Raios de Iansã e a fúria de Oxum.”
E muitos anos se passam. A lei Áurea é assinada pela princesa Isabel, o Império se vai, nasce a República. Presidentes se sucedem, até que um , compadecido de seu povo cria uma lei que extingue qualquer nova tentativa de escravidão. O trabalho é dignificado e o operário, ganha direitos. Depois dos anos de chumbo, a volta da democracia e a constituinte. O país aos poucos se ergue com um povo sofrido e trabalhador prosperando.
É neste cenário que renasce Chico Rei, agora reencarnado em Severino da Silva, nordestino que vê um futuro brilhante para seu país. Conhece um presidente que faz o sonho do povo tornar-se real e outro que expande os horizontes das minorias excluídas no país.
Riquezas minerais, eventos mundiais e economia forte, o fazem acreditar que aquele grande país se transformará em uma potência mundial, guiando o mundo para um caminho de luz e paz.
Mas um escandâlo de corrupção atrás do outro, levam este país ao caos e a beira do abismo. E o sonho dourado se transforma em uma escuridão sem fim. E eis que algo impensável se ouve. É o fim dos direitos dos trabalhadores, um ministério cai e volta o trabalho de servidão e escravidão. É o suor do rosto em troca do pão de cada dia.
Severino, que apesar de todos os estudos, experiência, pertencia a inúmeras minorias, agora menosprezadas e descartadas pelos que comandam o país. Se vê tal qual escravo, com muitos severinos e severinas ao lado dele. E uma voz dentro de si, promessa de outra vida, ecoa em seus pensamentos. Reune os irmãos de luta e labuta, quando são levados por um pau-de-arara para uma fazenda em Minas Gerais e promete acabar com aquele sofrimento e libertar deste sistema o seu povo.
E sua voz se faz ouvir, desde os sertões mineiros até os confins do país com a verdadeira voz da democracia, de um governo eleito pelo povo e para o povo, sem interesses escusos, propinas ou delírios de riqueza.
Ao seu lado, três raças unidas e as entidades elementais, santos e orixás, inspirando-o com palavras de liberdade, igualdade e união.
E nas eleiçoes, Severino da Silva, nordestino, pobre, negro, que já passou fome, que já sofreu a violência no seio familiar, e preconceito por sua identidade de gênero, vira presidente e lider da nação. E finalmente alcança o seu sonho de criança. O país se torna uma potência mundial, guiando o mundo para uma era de prosperidade. Mas dizem, que Severino, agora lider mundial, sempre teve ao seu lado uma sombra. Um pássaro que o inspira. Um falcão. Mas quem o conheceu como Chico Rei, sabe que esta ave de rapina, é ninguém menos que o Rei Xangô.
Assim somos nós, verdadeiros brasileiros, mesmo com tanta luta, humilhação, fome, precariedade e desigualdade de oportunidades jamais desistimos de nossos sonhos. Pois é a união de uma nação que pode erradicar os privilegios e os conceitos preconcebidos. Fica para nós a lição, que só por meio da junção do respeito e do amor seremos, de fato, auforriados da escravidão da malignidade do egoísmo corrompedor de nossos mais ricos valores morais. Que a mudança deve começar dentro de cada um para que assim possamos mudar o que corrompe a nossa ética. Deixemos de lado o jeito malandro, faceiro de comer pelas beiradas, aquele tirar vantagem que só nos iguala aos corruptos que vem nos roubando desde o dia em que Colombo colocou os pés no nosso país, e os troquemos pelo carinho acolhedor e caloroso, pelo sorriso sincero e o amor. A Falcão traz de forma lúdica e profética um assunto muito sério sobre direitos e deveres, sonhos e obstinação, fé e tolerância. Vamos rir e pular esse carnaval, mas vamos também refletir e mudar os conceitos que acharmos pertinentes para convivermos melhor com as diferenças e necessidades do outro. E depende de cada um de nós esta mudança. Afinal, todo verdadeiro brasileiro é um Chico Rei.
Escute o Samba

TODO VERDADEIRO BRASILEIRO É UM CHICO REI


Escola/ Ano: Inédito
Compositor: Claudio Sampaio
Intérprete: Walter WSS ( Walter Santos )

Que canto é esse que vem de lá,
que faz o chão e o céu tremer
vermelho e branco a arrepiar
e apaixonar você?
Somos nós, qual Chico Rei,
sob as asas de Xangô.
Kawo-Kabiesilé, Falcão chegou.

Kawo-Kabiesilé, com as bençãos de Xangô,
Galanga, o banzo rejeitou.
É pacto sagrado, a palavra de um Rei.
Promessa de alforria, mais do que discurso, é lei.
Um canto de Oxum vem do mar e a brisa leva
aos porões do Madalena e a negra tristeza do cais.
Um xirê de Yansã, fé e esperança
do Valongo a Minas Gerais.

Vila Rica, doce chão.
Pó de ouro nos cabelos,guardado na senzala.
Tesouro é liberdade sem chicote, mordaça ou cruz.
Em nova fé, Sincretismo traduz.

E se o Rei se foi, um dia,
sem ver a Lei de Isabel,
ou o tombo da Monarquia;
contam que ao chegar no céu:
Aplaude o Pai do Trabalhador
e sente a dor da Ditadura.
Constituinte e um Brasil que despertou
e para o mundo impõe sua cultura.

Entre muitos Severinos,
de um nordeste rejeitado.
Volta o rei, negro, pobre,
resgatando seu passado.
Pau de arara à Vila Rica,
a Rapina a acompanhar.
Contra a Neo-Escravidão,
sua voz não vai calar.
Democracia é poder na mão do povo.
A liberdade e a igualdade se torna real.
Mas para contruir um mundo novo,
a nossa união é fundamental.