Sinopse Recreio das Flores 2019

Na Força do Oxé de Xangô
Autor: Robson Ferreira

Em 2019, a Mocidade Recreio das Flores trará a história do Rei de Oyó.
É sabido que os povos da região onde hoje é a Nigéria, não tinham a habilidade da escrita e todo conhecimento era passado de geração a geração para que sua história se mantivesse viva. Quem nos trará essa grandiosa estória será Oduduwa.
Oyó, reino dos iorubas, povo africano que ainda habita essa terra que hoje tem como nome Nigéria.
Eu vim de uma cidade ao Leste de Oyó, e com meu exército invadi a capital de um povo chamado Ifé; tornei-me governante e o lugar passou a chamar-se Ilê-Ifé.
Ali criei raízes, família, filhos. Dentre meus filhos não poderia deixar de destacar Oraniã, o mais novo que se tornou um grande conquistador e ainda jovem já era muito rico.
O desejo de desbravar novos territórios o fez avançar com seu exército em busca de novos territórios a serem conquistados para o avanço de seu império.
Porém, diante de uma batalha sangrenta e dura, fora aconselhado pelo oráculo a permanecer com seus homens naquelas terras onde se encontravam, a fim de se fortalecerem para assim vencerem a guerra.
O tempo transformou aquele acampamento em uma próspera e poderosa cidade. Nascia ali o Reino de Oyó e Oraniã fora proclamado Obá de Oyó. Obá aqui não deve ser confundido com a orixá, nesse caso é título de Rei.
Ao rei de Oyó foi concedido o título de Alafim, o Senhor do Palácio de Oyó.
Ajacá sucedeu Oraniã tornando-se o terceiro Alafim de Oyó, no entanto o transcurso do tempo demonstrou que este não possuía habilidades para governar e nem mesmo para batalhar.
Ajacá tinha um irmão, que fora criado nas terras dos Nupes, povo vizinho a Oyó; filho da princesa Iamassê, guerreiro que governava Kossô, seu nome, Xangô. O reino precisava de um guerreiro que o defendesse, assim, Xangô assume o trono de Oyó e exila Ajacá-Dadá, como era conhecido, para uma cidade distante de Oyó onde passou a usar uma coroa de búzios, a coroa de Baiani.
Xangô foi assim coroado o quarto Alafim de Oyó, o obá da capital de todas as grandes cidades iorubas.
Com o prestígio conquistado pelo soberano, ele ergueu um palácio com cem colunas de bronze, no alto da cidade de Kossô para viver com suas três esposas.
Iansã foi sua primeira esposa e a única que o acompanhou em sua saída estratégica da vida. É com ela que divide o domínio sobre o fogo.
Oxum foi à segunda esposa de Xangô e a mais amada. Apenas por Oxum, Xangô perdeu a cabeça, só por ela chorou.
A terceira esposa de Xangô foi Obá, que amou e não foi amada. Obá abdicou de sua vida para viver por Xangô.
Embora fosse conhecido pelo seu poder, este desejava consolidá-lo ainda mais e para isso mandou trazer das terras dos baribas um composto mágico.
À Iansã ficou a incumbência de trazer a poção a qual ela não resistiu e provou. O gosto ruim a fez cuspir o liquido e nesse momento fogo saiu de sua boca. Xangô recebera tal notícia com entusiasmo, acreditando que assim se tornaria ainda mais poderoso.
Tomado de vaidade, o Obá de Oyó subiu em uma montanha de posse de sua poção mágica e dela fez uso, queimando árvores, pastagens e animais. O povo amedontrou-se diante das labaredas e do forte estrondo que vinha do alto da montanha e a esse deram o nome de trovão.
Cego pelo poder conferido pela poção, o Rei não se deu conta de que acabara por atingir seu palácio e pouco a pouco todo o reino foi sendo consumido pelo fogo.
Após o incêndio, o conselho do reino decidiu destituir Xangô e sentenciaram-no ao suicídio, como era o costume. Xangô se caminhou para a floresta e numa árvore se enforcou. “Oba so!”, “Oba so!” “O rei se enforcou!”. Seu corpo nunca fora encontrado espalhando-se a notícia de que o rei havia se tornado um Orixá e ido para o Orum, o céu dos Orixás.
Pelo império passou-se a ouvir “Oba ko so!”, “O rei não se enforcou!” “Oba ko so!”, “Oba ko so!”. E sempre que um raio risca o céu e um trovão ecoa, filhos de Xangô entoam “Oba ko so!”, “Oba ko so!”
Oyó sempre fora conhecido por seu poderio militar, o que impedia a invasão de escravagistas às terras iorubas. No entanto, ao longo do tempo essa força foi diminuindo o que acabou por permitir que outros povos africanos capturassem os iorubas e os levassem para o mercado de escravos.
Vi meu povo que antes era livre sendo levado para terras distantes e o Brasil foi um dos destinos desses negros iorubas provenientes de diferentes cidades, com diferentes línguas e cultos a diferentes orixás, mas um era comum a todos, Xangô.
De onde estou vi meu povo sendo espalhado por essa nova terra, impedidos de serem quem são, de adorarem seus orixás. A eles foram impostas as senzalas, os grilhões e os cultos dos senhores da Casa Grande. Vi meus irmãos oprimidos, “a lágrima branca sobre a pele negra”.
Aos meus irmãos restou o sincretismo, associar as imagens católicas a seus Orixás, como forma de manter viva sua regiliosidade.
No que tange a Xangô, este foi associado a São Jerônimo, São João Batista e São Pedro e a cada um destes une-se uma característica.
São Jerônimo é o machado, o Oxé que faz a justiça, proporciona a redenção daqueles que foram humilhados, o castigo para quem merece. São Jerônimo é comparado na Liturgia das Horas com um sol, que é um dos símbolos de xangô (representando força e realeza) e com um leão, animal que representa o deus africano – também assimilando a realeza e força.
São João Batista é o fogo, a purificação através do batismo, em tratando-se de Xangô, o fogo que queima o mal e faz brotar o bem.
São Pedro é a rocha, aquele que domina os raios e trovões, a dureza da justiça, o santo protetor das almas, pois é ele que possui as chaves das portas do céu para aqueles que merecem, dentro das leis de Deus, e passam pela justiça divina, o rei de Oyó também é conhecido como o senhor das almas.
Vejo um mundo de tantas injustiças, desigualdades sociais, marginalização, abandono e falta de oportunidades sociais de todo tipo, como este em que vivem, o orixá da justiça ganhou cada vez maior importância. Seu prestígio foi consolidado.
Xangô é mais que história da África e mais que história do Brasil. Seu duplo machado visa a justiça para cada um dos dois lados.
Clamar a Xangô, para o devoto, é buscar alento, realimentar esperanças, prover-se de forças para a difícil aventura da vida.
Cultuá-lo, render-lhe homenagem é para seus “filhos” e devotos, uma pequena forma de agradecer a esse guerreiro justiceiro por lhes proteger e fazer com que a justiça prevaleça.
O alabê traz o toque do alujá para festejar o Rei de Oyó, “o corpo balança, a pele arrepia”, seus filhos o saúdam senhor da Justiça. Kaô Kabecilê.
Que seu Oxé com a força do trovão, faça ecoar seu brado de liberdade. Kaô Kabecilê.

uesm

Fundador Coordenador da UESM

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